Como montar um brechó online: o fardo que é proibido, a conta do preço e o que a lei pede na peça usada
Para montar um brechó online, compre peças com origem (fardo de roupa usada importada é proibido), calcule o preço pelo custo, despesas e lucro, anuncie com "roupa usada", medidas e defeitos à mostra, e formalize como MEI de artigos usados, que dá nota em toda venda a partir de 2027.
Por Thiago Bastos12 min de leitura

O fardo de roupa usada que chega de fora, cheio de peça de marca, parece a melhor compra do mês. Só que roupa usada importada é importação proibida no Brasil. E revender, mesmo de casa, entra no crime de contrabando.
Montar um brechó online começa pela origem da peça, não pelo Instagram. Depois vêm o preço, o anúncio e o canal. A resposta curta:

Montar um brechó online ainda vale a pena?
Vale, para quem aceita vender peça por peça. Em setembro de 2026, 24.265 lojas de artigos usados tinham CNPJ ativo no Brasil, pela contagem que fizemos nos dados abertos da Receita Federal (CNAE 4785-7/99). Três em cada quatro são MEI.
E o número de aberturas cresceu: foram 4.019 em 2024 e 5.212 em 2025, alta de 29,7%. De janeiro a agosto de 2026 já são 4.053.

Quem compra quer preço. Na pesquisa Brechós 2025 do Sebrae-SP, com 400 clientes, 71% disseram que compram em brechó pelos preços mais baixos. O gasto mais comum por compra fica entre R$ 50 e R$ 100.
Agora o lado difícil: 84% preferem comprar no brechó físico, e 40% citam o online. Na loja virtual, a foto e a medida precisam fazer o papel do provador.
O "118 mil brechós no Brasil" que circula como dado de 2023 é do Sebrae/PR, de outubro de 2021, e conta também quem tem usados só como atividade secundária. E os "R$ 24 bilhões" são um mercado possível calculado pela BCG e pelo Enjoei em 2022, não o faturamento do setor.
Onde comprar peças para o brechó?
Compre de quem diz de onde a peça veio. As fontes mais comuns, e o cuidado de cada uma:
Fonte | Como funciona | Cuidado |
|---|---|---|
Desapego de conhecidas | Você compra o lote do guarda-roupa | Combine o preço por lote, não por peça |
Bazar e doação | Igreja, escola, ONG | Peça recibo do que pagou |
Consignado | A dona deixa, você vende e repassa | Contrato e foto na entrada |
Fardo de roupa usada do Brasil | Lote por quilo ou por peça | Fornecedor com CNPJ e nota |
Fardo importado | Roupa usada de fora | Proibido. Não compre |

Por que o fardo importado é proibido?
O Brasil não autoriza a importação de bens de consumo usados (Portaria Secex 249/2023, art. 35). Só entidade beneficente importa roupa usada doada, e mesmo ela não pode vender, "inclusive em bazares beneficentes" (art. 38).
Quem compra ou revende mercadoria proibida no comércio responde por contrabando, com pena de 2 a 5 anos (Código Penal, art. 334-A). A lei conta como comércio até o que é feito em casa.
Fardo do Brasil não tem essa proibição. Mas lote barato demais, de quem não diz a origem, é risco de receptação (art. 180 do Código Penal). Guarde nota ou recibo de toda compra.
Quanto cobrar por uma peça de brechó?
Faça a conta da peça, não use o "vezes 3". Não achamos a origem dessa regra. O que o Sebrae ensina é o markup: dividir 100 pelo que sobra depois das despesas e do lucro.

Três detalhes que mudam a conta no brechó:
Divida o lote só pelas peças boas. A peça manchada que não vai vender também custou dinheiro.
A taxa do canal entra nas despesas. No Enjoei, uma peça de R$ 50 no modo clássico paga 12% mais R$ 6,50 de tarifa fixa: você recebe R$ 37,50, segundo o próprio site.
Compare com a peça nova. Se o seu preço chega perto do preço da loja de roupa nova, ninguém compra usado.
O preço que sai da conta é o piso. Peça de marca, rara ou muito procurada pode ir acima, e o leilão em live descobre quanto vale.
O que escrever no anúncio de roupa usada?
O que a lei pede: a palavra "roupa usada", todo defeito à mostra e as medidas. Roupa usada não precisa da etiqueta completa do Inmetro, mas cada peça precisa da informação "roupa usada" (Portaria Inmetro 118/2021, Apêndice B, item 37).

Escrever "vendido no estado" não protege você. Para o Procon-ES, essa frase é nula: o que vale é o defeito descrito no anúncio. O que você mostrou não vira reclamação. O que escondeu, vira.
E o Código de Defesa do Consumidor vale igual para o usado. Na compra pela internet, a cliente tem 7 dias para desistir (art. 49). Para defeito não informado, são 90 dias, porque o STJ trata roupa como bem durável (REsp 1.161.941).
Quais medidas colocar?
Peça única não tem tabela de tamanhos. Meça a peça deitada na mesa e escreva em centímetros:
Blusa, vestido e casaco: largura de axila a axila, comprimento do ombro à barra, manga.
Calça, saia e short: cintura, quadril, comprimento e, na calça, o gancho.
Diga a etiqueta e o caimento: "etiqueta M, veste como P" evita troca.
No 1º semestre de 2026, o tamanho foi o motivo de 55% das trocas e devoluções do e-commerce, em todas as categorias (Confi e Aftersale). Para medir passo a passo, veja o artigo como vender roupas online.
Precisa lavar as peças?
Não achamos lei que obrigue o brechó a higienizar as roupas, nem federal nem da Anvisa. Mas é o que a cliente espera: o Enjoei Pro, por exemplo, recusa peça "não higienizada" ou com mau odor. Lave, passe e conserte o que dá antes da foto.
Onde vender: loja própria, Instagram ou marketplace?
Cada canal cobra de um jeito, e um deles nem aceita usado. Ponha a taxa na conta do preço antes de escolher:
Canal | Aceita usado? | O que cobra do vendedor |
|---|---|---|
Enjoei | Sim | 12% ou 18% + tarifa fixa; modo grátis com limites |
OLX | Sim | Tarifa zero na venda |
Mercado Livre | Sim, marcado como usado | Tarifa por categoria |
Shopee | Sim, fora de algumas categorias | Taxas da tabela da Shopee |
TikTok Shop | Não | Usado proibido no Brasil |
Loja própria + Instagram e WhatsApp | Sim | Sem comissão de marketplace; você traz a cliente |
Desde a política de 17/08/2026, o TikTok Shop no Brasil diz que "todos os produtos usados são atualmente proibidos". Live de brechó com o carrinho do TikTok, então, não dá. A live pode acontecer na sua própria loja, com o botão de comprar na tela.
Muitos brechós usam os dois caminhos: o marketplace para ser achado, e a loja própria para a cliente que já conhece voltar sem pagar comissão. Para comparar com calma, veja loja própria ou marketplace.
Como funciona o brechó consignado?
A dona deixa a peça, você vende e repassa o valor combinado. Pelo Código Civil, é um contrato estimatório (arts. 534 a 537). Se a peça sumir ou estragar com você, você paga o preço combinado, mesmo que não tenha culpa (art. 535).

A lei só fala em preço e prazo. O resto é o seu contrato: a sua parte em porcentagem, o que acontece com a peça que não vendeu e quem paga o frete da devolução. Escreva tudo e peça para a dona assinar.
Brechó precisa de CNPJ e nota fiscal?
Vender as suas roupas de vez em quando não pede CNPJ. Comprar para revender, com frequência, pede. A Receita trata como empresa a pessoa física que vende com habitualidade, para lucrar (Decreto 9.580/2018, art. 162).
Brechó pode ser MEI: a ocupação é "comerciante de artigos usados", CNAE 4785-7/99. O DAS de comércio em 2026 é R$ 82,05 por mês, e o limite segue em R$ 81 mil por ano.
Alvará: o MEI começa sem alvará, porque o certificado do MEI (CCMEI) vale como dispensa. A prefeitura ainda pode cobrar regras de uso do imóvel.
Nota fiscal: a partir de 1º de janeiro de 2027, o MEI emite nota em toda venda, inclusive para pessoa física (Resolução CGSN 190/2026).
Quem vende roupa nova junto com a usada pode ter as duas atividades. Para entender a diferença entre vender como pessoa física e como MEI, veja vender com CPF ou MEI.
Quando o brechó vende mais?
A busca por "brechó" sobe no frio. Nos últimos 5 anos, maio, junho e julho tiveram o maior interesse no Google Trends, e novembro a fevereiro, o menor. É o contrário da loja de roupa nova, que vende mais em dezembro.

Na prática: garimpe casaco, jaqueta e tricô em março e abril, para estar com tudo fotografado quando o frio chegar. Em dezembro, aposte em peça de festa e em presente.
Repare também no que a busca diz: quase ninguém digita "brechó online". O termo tem cerca de 2% das buscas de "brechó". Use "brechó" no nome, na bio e nos títulos.
Os erros que mais custam
Comprar fardo importado. É mercadoria proibida, e revender é contrabando.
Preço no olho. Sem a conta, a taxa do canal come o lucro da peça barata.
Esconder o defeito. Vira devolução, e "vendido no estado" não protege.
Anunciar só P, M ou G. Sem medida em centímetros, a cliente erra o tamanho.
Consignado de boca. Sem contrato e foto, a briga é na hora do repasse.
Contar com o TikTok Shop. Ele não aceita usado.
Para quem este roteiro não basta
Este artigo é para quem revende roupa, calçado e acessório usado em pequena escala. Brechó de luxo tem uma etapa a mais: autenticar a peça. Vender réplica é crime, mesmo usada (Lei 9.279/1996, art. 190), e o Mercado Livre recomenda guardar a nota para provar que a peça é original.
Antiquário tem outra atividade no MEI (4785-7/01). E móvel usado entra no mesmo CNAE, mas o frete é outra conta.
Como fazer isso na Sellit
Três passos deste artigo têm recurso pronto na Sellit:
Peça única que esgota sozinha: cadastre cada peça com estoque de 1. O controle de estoque baixa a quantidade a cada venda paga, e a peça aparece como esgotada. Ninguém mais pergunta "ainda tem?".
O caimento que a foto não mostra: o vídeo na capa do produto toca no lugar da primeira foto. Serve para mostrar a peça no corpo e o defeito de perto.
A peça disputada: o leilão em live deixa quem assiste dar lances, com relógio na tela. Quem dá o maior lance leva e recebe o link para pagar.
Quer ver como fica uma loja pronta? Veja a página de loja virtual para brechó.
De onde vêm os números
Receita Federal, dados abertos do CNPJ (competência set/2026): estabelecimentos ativos e aberturas com CNAE principal 4785-7/99, contagem do Blog da Sellit.
Sebrae-SP, pesquisa Brechós 2025 (09/09/2025): 400 consumidores de brechó em SP.
Sebrae/PR, Sebrae em Dados: Brechó (15/10/2021): origem do "118.778 negócios".
BCG e Enjoei, A (re)descoberta da moda seminova no Brasil (05/2022): mercado potencial de R$ 24 bilhões.
Secex, Portaria 249/2023, texto consolidado (até a Portaria 523, de 15/07/2026), arts. 35 e 38.
Código Penal, arts. 180 e 334-A; Código Civil, arts. 534 a 537; Código de Defesa do Consumidor, arts. 31 e 49.
Inmetro, roupas usadas e etiqueta (atualizado em 08/04/2026).
Procon-ES, dúvidas sobre produto: garantia do produto usado e cláusula "no estado".
Migalhas, STJ: vestuário é bem durável (20/12/2013), REsp 1.161.941.
Confi e Aftersale, via Central do Varejo (29/07/2026): motivos de troca e devolução, 1º semestre de 2026.
Sebrae, cartilha de formação de preço: markup multiplicador.
Enjoei, serviços, comissões e tarifas e modos de anúncio (consultados em 13/10/2026).
OLX, tarifas da garantia; Mercado Livre, produtos usados; Shopee, produtos proibidos e restritos (06/08/2026).
TikTok Shop Brasil, política de produtos proibidos (17/08/2026).
Receita Federal, Resolução CGSN 140/2018, Anexo XI; Normas Legais, Resolução CGSN 190/2026 (DOU de 10/08/2026); Decreto 9.580/2018, art. 162.
gov.br, dispensa de alvará do MEI.
Google Trends, termo "brechó", Brasil, 5 anos (coleta em 13/10/2026); IBGE, PMC, tabela 8882 (vestuário, 2022 a 2025).
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Perguntas frequentes
- Brechó precisa de CNPJ?
- Quem compra para revender com frequência precisa. A Receita trata como empresa a pessoa física que vende com habitualidade, para lucrar. O caminho mais simples é o MEI, na ocupação comerciante de artigos usados (CNAE 4785-7/99), com DAS de R$ 82,05 por mês em 2026. Vender as suas próprias roupas de vez em quando não pede CNPJ.
- Pode vender fardo de roupa usada importada?
- Não. A importação de bens de consumo usados é proibida (Portaria Secex 249/2023, art. 35), e comprar ou revender mercadoria proibida no comércio é contrabando (Código Penal, art. 334-A), inclusive em casa. Fardo de roupa usada do Brasil pode, de fornecedor que diga a origem.
- Como precificar roupas de brechó?
- Some o custo da peça (o lote e a lavagem, divididos só pelas peças boas) e multiplique pelo markup: 100 dividido por 100 menos as despesas e o lucro, em porcentagem. Com 30% de despesas e 20% de lucro, o multiplicador é 2: a peça de R$ 15 sai por R$ 30. O vezes 3 só fecha se despesas e lucro somarem 67%.
- Brechó precisa emitir nota fiscal?
- Até o fim de 2026, o MEI não precisa dar nota na venda para pessoa física. A partir de 1º de janeiro de 2027, pela Resolução CGSN 190/2026, o MEI emite nota em toda venda. Empresa fora do MEI já emite.
- Brechó precisa higienizar as roupas?
- Não achamos lei federal nem norma da Anvisa que obrigue. Mas a cliente espera peça limpa, e plataformas como o Enjoei Pro recusam peça não higienizada ou com mau odor. Lave e conserte antes da foto.
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