Gestão e finanças

Plano de negócios simples: o modelo de 1 página para sua loja (e a conta da meta de 2027)

Um plano de negócios simples cabe numa página e responde 6 perguntas: o que você vende e para quem, onde vende, quanto sobra por venda, quanto quer ganhar, quantas vendas isso pede e o que fazer em cada mês. Para tirar R$ 2.000 com sobra de R$ 30 por venda, são 80 vendas no mês.

Por Thiago Bastos13 min de leitura

Uma em cada 3 pequenas empresas abriu sem calcular quantas vendas precisava para pagar as contas. É o que o Sebrae ouviu de 3.047 donos de negócio. Não fazer essa conta é o jeito mais comum de trabalhar o mês inteiro e não sobrar nada.

Plano de negócios não precisa ter 30 páginas. Para uma loja pequena, ele cabe numa folha e responde 6 perguntas.

Arte com o plano de negócios em 6 perguntas: o que vendo e para quem, onde vendo, quanto sobra de cada venda, quanto quero ganhar no mês, quantas vendas isso pede e o que faço em cada mês

Preciso mesmo de um plano de negócios?

Se você já vende ou vai começar, precisa de pelo menos a conta. O plano é o lugar onde ela fica escrita, para você conferir todo mês.

Os números do Sebrae mostram o tamanho do problema. Pelos dados da Receita Federal, 42,3% dos MEIs abertos de 2017 a 2021 deram baixa no CNPJ em até 5 anos. No comércio, 43,4%.

Numa pesquisa com 3.047 empresas abertas em 2018 e 2019, só 42% tinham feito um plano de negócios antes de abrir. E 17% não tinham planejado nada. Entre as que fecharam, 18% disseram que planejar melhor teria ajudado.

Plano não garante que a loja dá certo. A pesquisa mostra o perfil de quem fechou, não prova que o plano salva. Mas quem faz a conta descobre o problema antes do dinheiro acabar.

E o estudo de Harvard sobre metas?

Ele nunca existiu. A história de que "os 3% de uma turma de Harvard (ou Yale) que escreveram metas ganham 10 vezes mais" circula há décadas em palestra e livro de autoajuda.

Em 1996, a revista Fast Company foi atrás. Falou com a turma de 1953 e com a universidade, e ninguém achou o estudo. A pesquisadora Gail Matthews, da Dominican University, chama a história de lenda urbana.

Arte comparando o mito e o estudo real: o estudo de Harvard dos 3% que escreveram metas e ganham 10 vezes mais é lenda, ninguém achou; o que existe é a pesquisa de Greene e Hopp, publicada na Harvard Business Review em 2017, com mais de 1.000 empreendedores acompanhados por 6 anos, em que quem escreve o plano tem 16% mais chance de o negócio se pagar

O que existe é mais modesto, e mais útil. Em 2017, os pesquisadores Francis Greene e Christian Hopp acompanharam mais de 1.000 pessoas abrindo negócio nos Estados Unidos, por 6 anos. Quem escreveu o plano teve 16% mais chance de chegar ao ponto em que o negócio se paga.

Os próprios autores avisam que plano escrito não é o melhor caminho para todo mundo. Por isso, aqui a ideia é o plano curto, que você revisa com o que aprende vendendo.

O que vai num plano de negócios simples?

As 6 perguntas da arte lá em cima. Cada uma vira uma ou duas linhas. Se não cabe numa linha, você ainda não decidiu.

  • O que vendo, e para quem? O produto e a cliente, numa frase. "Todo mundo" não é cliente: diga idade, cidade e por que ela compra.

  • Onde vendo? Instagram, WhatsApp, loja virtual, feira, marketplace. Escreva onde você vai estar toda semana, não onde gostaria de estar.

  • Quanto sobra de cada venda? O preço menos o produto, a embalagem, o frete que você paga e a taxa do pagamento. É o número que mais engana.

  • Quanto quero ganhar no mês? O que você quer tirar para você, mais as contas fixas da loja.

  • Quantas vendas isso pede? A meta dividida pela sobra. A conta está logo abaixo.

  • O que faço em cada mês? As datas que vendem, o que comprar antes, e o dia em que você confere o plano.

Não sabe a sobra? Comece pelo guia de como calcular o preço de venda, que separa cada custo. E para o dinheiro do dia a dia, veja organização financeira para a loja.

Como calcular a meta de vendas do mês?

Some o que você quer tirar com as contas fixas, e divida pelo que sobra de cada venda. O resultado é quantas vendas o mês pede.

Um exemplo: você quer tirar R$ 2.000 por mês. A loja tem R$ 400 de contas fixas (o DAS do MEI, internet, mensalidade, um pouco de anúncio). Cada venda deixa R$ 30 de sobra.

Arte com a conta da meta: R$ 2.000 que você quer tirar mais R$ 400 de contas fixas, divididos por R$ 30 de sobra por venda, dão 80 vendas no mês, umas 3 por dia; com 133 visitas por venda (conversão de 0,75% das lojas virtuais que faturam até R$ 100 mil por mês, NuvemCommerce 2026), são 10.640 visitas no mês, umas 355 por dia

São 80 vendas no mês. Parece pouco até a próxima conta: quantas pessoas precisam entrar na loja para isso.

Pelo relatório NuvemCommerce 2026, as lojas virtuais que faturam até R$ 100 mil por mês vendem para 0,75% das visitas. Dá umas 133 visitas para cada venda. Para 80 vendas, são mais de 10 mil visitas no mês.

Essa é a pergunta que o plano obriga a responder: de onde vêm essas pessoas? Do Instagram, do anúncio, do grupo de clientes, da indicação. Se você não sabe, o plano já mostrou onde trabalhar.

E se as vendas vêm do WhatsApp?

Aí a conta de visitas fica menor. Quem já te conhece e chama no WhatsApp compra muito mais que um desconhecido entrando na loja. Ninguém publica esse número com pesquisa séria, então use o seu: de cada 10 conversas no mês, quantas viraram venda?

Dá para precisar de menos vendas?

Dá, aumentando o que sobra de cada uma. A mesma meta de R$ 2.400 pede 120 vendas com sobra de R$ 20, e só 60 com sobra de R$ 40.

Gráfico de barras com quantas vendas por mês a mesma meta de R$ 2.400 pede conforme a sobra de cada venda: sobra de R$ 20, 120 vendas; R$ 30, 80 vendas; R$ 40, 60 vendas; R$ 60, 40 vendas

Três jeitos de mexer nesse número, do mais fácil ao mais difícil:

  1. Vender mais em cada pedido. Um kit de brinco com colar, ou o "leve 2", aumenta a sobra sem precisar de outra cliente. O guia do ticket médio tem as ideias.

  2. Trazer a cliente de volta. Quem já comprou não precisa de visita nova nem de anúncio. Veja como fidelizar clientes.

  3. Rever o preço e o custo. Às vezes o fornecedor subiu e o preço ficou parado. Ou o frete que você paga come a sobra inteira.

A meta cabe no MEI?

Confira antes de fechar o plano. O teto do MEI é R$ 81 mil de venda por ano, uns R$ 6.750 por mês.

No exemplo, 80 vendas de R$ 79 dão R$ 6.320 por mês: R$ 75.840 no ano, quase no teto. Se a sua meta passa disso, o plano precisa ter a virada para microempresa. A conta está em vender com CPF ou abrir MEI.

O que muda em 2027 e precisa entrar no plano?

A maior mudança é a nota fiscal. A partir de 1º de janeiro de 2027, o MEI emite nota em toda venda, inclusive para pessoa física (Resolução CGSN 190, de agosto de 2026). Para mercadoria, o caminho indicado é a Nota Fiscal Fácil, sem custo.

Linha do tempo do que muda para a loja pequena em 2027: 15/10/2026, último dia para a empresa que ainda não está no Simples pedir a entrada; 1º/01/2027, MEI dá nota em toda venda, até para pessoa física, pela Nota Fiscal Fácil; 1º/01/2027, PIS e Cofins acabam e entra a CBS, que no Simples vem dentro da guia; janeiro de 2027, o DAS do MEI muda com o salário mínimo novo; o teto do MEI segue R$ 81 mil, porque os projetos para subir não foram votados
  • Nota em toda venda: ponha no plano o tempo de emitir cada nota, inclusive das vendas do WhatsApp. Quem vende 80 vezes no mês emite 80 notas.

  • DAS novo: em 2026, o DAS do MEI do comércio é R$ 82,05. Ele acompanha o salário mínimo, que o Orçamento de 2027 prevê em R$ 1.741. Se ficar nisso, só a parte do INSS vai a R$ 87,05 (conta nossa: 5% do mínimo).

  • CBS: o PIS e a Cofins acabam em 1º de janeiro de 2027. Para quem está no Simples, a CBS entra na mesma guia.

  • Simples para 2027: a empresa que ainda não está no Simples tem até 15 de outubro de 2026 para pedir (Resolução CGSN 194).

  • Teto do MEI: segue R$ 81 mil. Há um projeto do governo (PLP 186/2026) para subir a R$ 110 mil em 2027, mas ele não foi votado. Planeje com o teto de hoje.

Exemplo pronto: o plano de 1 página de uma loja de semijoias

A Júlia vende semijoias pelo Instagram, pelo WhatsApp e por uma loja virtual. O plano dela para 2027 inteiro ficou assim:

Pergunta

Resposta da Júlia

O que vendo, e para quem?

Brincos e colares folheados, de R$ 49 a R$ 129, para mulheres de 25 a 45 anos que compram presente

Onde vendo?

Stories todo dia, WhatsApp, loja virtual no link da bio e 1 feira por mês

Quanto sobra de cada venda?

Preço médio R$ 79, sobra R$ 30

Quanto quero ganhar?

R$ 2.000 para mim + R$ 400 de contas fixas

Quantas vendas isso pede?

80 por mês, umas 20 por semana

Como chego lá?

Kit de brinco com colar para subir a sobra; mensagem para quem comprou há 60 dias

Quando confiro?

Último dia de cada mês, 30 minutos

Copie a tabela num caderno, no bloco de notas do celular ou numa planilha. O lugar não importa. Importa estar escrito e ter data para conferir.

E o que fazer em cada mês?

Divida o ano em 4 partes e marque as datas que vendem. O que comprar antes, e quando começar a divulgar, vai do lado.

Quando

Datas de 2027

O que pôr no plano

Jan a mar

Carnaval 09/02 (terça), Páscoa 28/03 (domingo)

Nota em toda venda e DAS novo; promoção do que sobrou do Natal

Abr a jun

Dia das Mães 09/05 (domingo), Namorados 12/06 (sábado)

Comprar e fotografar em março

Jul a set

Dia dos Pais 08/08 (domingo), Dia do Cliente 15/09 (quarta)

Comprar para o fim do ano em setembro

Out a dez

Crianças 12/10 (terça), Black Friday 26/11, Natal 25/12 (sábado)

Fazer o plano de 2028 em outubro

As ideias para cada data estão no calendário de datas comemorativas.

Como saber se o plano está dando certo?

Reserve 30 minutos no último dia do mês e responda 5 perguntas. Sem isso, o plano vira papel na gaveta em fevereiro.

Checklist da revisão do fim do mês em 30 minutos: quanto vendi e quantas vendas foram; quanto sobrou depois de pagar tudo; cheguei na meta, e se não, faltou venda ou faltou sobra; qual produto deu mais lucro e qual deu menos; o que eu mudo no mês que vem, uma coisa só

A terceira pergunta é a que mais ensina. Faltou venda é problema de gente chegando. Faltou sobra é problema de preço, custo ou desconto. São consertos diferentes.

E mude uma coisa só por mês. Se você trocar o preço, o anúncio e o produto ao mesmo tempo, não sabe o que funcionou.

Revendedora de semijoias revisando as vendas do mês no notebook, no fim do dia, com caixinhas de brincos e colares na mesa, e painéis digitais em volta com um gráfico de barras, um anel de meta quase completo e fotos de produtos

Onde fazer um plano de negócios de graça?

O Sebrae tem as ferramentas mais completas, todas gratuitas. Servem para quem quer ir além da folha única.

  • PNBox: o plano de negócios do Sebrae na internet, com 14 ferramentas (custos, funil de vendas, simulador de resultados). Dá para fazer só as principais e baixar o plano.

  • Sebrae Canvas: o desenho do negócio em 9 quadros, com post-its na tela. Tem aplicativo para celular.

  • Curso "Como elaborar um plano de negócio": on-line, 2 horas, feito para MEI e pequeno negócio.

  • Planilha de plano de negócios do Sebrae/PR: em Excel, pede cadastro.

Os erros mais comuns

  1. Confundir venda com ganho. "Quero ganhar R$ 10 mil" não é vender R$ 10 mil. O plano começa pelo que sobra.

  2. Esquecer as contas fixas. DAS, internet, mensalidade e anúncio saem mesmo no mês sem venda.

  3. Meta sem caminho. "Vender 80 por mês" sem dizer de onde vêm as clientes é desejo, não plano.

  4. Escrever e nunca mais abrir. O plano bom é o que você confere todo mês e corrige.

  5. Copiar o plano de empresa grande. Missão, visão e análise de concorrência de 10 páginas não pagam o boleto de quem vende sozinha.

Para quem esse plano de 1 página não basta

Se você vai pedir empréstimo ou procurar sócio, precisa do plano completo. No programa de microcrédito Acredita no Primeiro Passo, por exemplo, o plano de negócio é obrigatório e é feito junto com um agente do programa. Para isso, use o PNBox.

E se você ainda não vendeu nada, não comece pelo plano do ano. Teste o produto por umas semanas e só depois faça a conta com números seus. O jeito de testar está em como escolher produtos para vender.

Como acompanhar o plano na Sellit

Na aba Resumos do Analytics, o mês fecha numa frase, com vendas pagas, faturamento e ticket médio, comparado com o mês anterior. Dá para ligar um aviso no aplicativo no fechamento de cada mês, que é o lembrete da revisão de 30 minutos.

Com o preço de custo preenchido em cada produto, a aba Lucratividade mostra quanto sobrou por produto e por pedido: a pergunta 3 do plano com o seu número. E as visitas e o funil mostram quantas pessoas entraram para cada venda, no lugar da média de 133 (Analytics da loja). Para fazer a conta numa planilha, o extrato de vendas sai em Excel (controle de vendas).

De onde vêm os números

  • plano de negócios
  • meta de vendas
  • MEI
  • planejamento
  • Sebrae

Perguntas frequentes

Preciso de plano de negócios para abrir MEI?
Não. O cadastro do MEI no Portal do Empreendedor não pede plano de negócios. Mas a conta de quantas vendas você precisa por mês vale a pena fazer antes de abrir: numa pesquisa do Sebrae, 1 em cada 3 empresas abriu sem ela.
Qual a diferença entre plano de negócios e Canvas?
O Canvas é o desenho do negócio em 9 quadros: cliente, oferta, canais, custos. O plano de negócios põe número e prazo nisso: quanto sobra por venda, qual é a meta e o que fazer em cada mês. O Sebrae Canvas é gratuito e serve como primeiro passo.
Como calcular a meta de faturamento do MEI?
Some o que você quer tirar com as contas fixas e divida pelo que sobra de cada venda. Isso dá o número de vendas. Multiplique pelo preço médio e você tem o faturamento do mês. Depois confira o teto: o MEI pode vender até R$ 81 mil por ano, uns R$ 6.750 por mês.
Quanto tempo leva para fazer um plano de negócios simples?
O de 1 página sai numa tarde, se você já sabe seus custos. O que dá trabalho é descobrir quanto sobra de cada venda. Depois, a revisão leva uns 30 minutos no último dia de cada mês.
O banco pede plano de negócios para emprestar ao MEI?
Depende do programa. No Pronampe, a lei não exige plano: o que se pede é compartilhar os dados de faturamento com o banco. No Acredita no Primeiro Passo, o plano de negócio é obrigatório e é feito junto com um agente do programa.

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